Umuarama entra no mapa nacional da inovação — e já sabe o que falta para subir ao palco
Relatório do Prêmio Nacional de Inovação destaca pontos fortes de Umuarama e indica desafios para o ecossistema avançar.

Umuarama colocou seu ecossistema de inovação na balança nacional. A cidade inscreveu o ELI Umuarama — o arranjo que reúne universidades, empresas, poder público e entidades locais em torno da inovação — no 9º Prêmio Nacional de Inovação (PNI), na modalidade Ecossistemas de Inovação de médio porte. O case foi construído a muitas mãos: a elaboração foi coordenada e apoiada pelo Sebrae, com a participação do IFPR, da Unipar, da UEM, da UniALFA e da Fundação Cândido Garcia, e passou pelo crivo de uma comissão de especialistas de fora do estado, que leram, questionaram e pontuaram cada afirmação apresentada.
O resultado veio em forma de relatório detalhado. Umuarama não chegou à final desta edição, mas a avaliação foi sólida e, em alguns pontos, acima da média dos ecossistemas concorrentes do país. Mais importante: os avaliadores explicaram, critério por critério, exatamente o que separa a cidade do próximo nível. Para quem trabalha com desenvolvimento territorial, esse tipo de devolutiva vale tanto quanto um troféu.
O que é o Prêmio Nacional de Inovação
O PNI é considerado a maior premiação de inovação do Brasil. É uma iniciativa da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pelo Sebrae Nacional, com correalização do SESI, do SENAI, do Instituto Euvaldo Lodi (IEL) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Ele reconhece três tipos de protagonista: empresas, pesquisadores e ecossistemas de inovação.
A concorrência nesta edição foi pesada. Foram 1.451 inscrições no total, sendo 107 apenas de ecossistemas de inovação. Desse universo, 59 nomes de 17 estados chegaram à etapa final. Ao longo de oito edições anteriores, o prêmio já reuniu mais de 16,5 mil inscritos e reconheceu 113 iniciativas de todas as regiões do país.
A metodologia mudou nesta edição: os projetos passaram a ser avaliados também pela efetividade no mercado, com base em resultados mensuráveis e impacto positivo na sociedade. Ou seja: não basta contar boas histórias — é preciso comprovar com números.
Como Umuarama foi avaliada
O relatório mede o ecossistema em cinco dimensões e compara cada uma delas com o desempenho dos concorrentes. A régua de comparação é o chamado 3º quartil — na prática, a nota dos ecossistemas que estão entre os 25% melhores do país naquele critério. Ficar próximo dessa linha, na estreia, já diz muito.

O destaque isolado foi Geração de Valor: 87 pontos contra 73,33 do 3º quartil nacional. Dentro dessa dimensão, Umuarama tirou a nota máxima em impactos não financeiros — o critério que olha para geração de empregos, abertura de empresas e peso econômico do ecossistema. Em Originalidade da Inovação e em Conexão com Área de Atuação Prioritária, a cidade empatou com os melhores do país, com 80 pontos em cada.
As dimensões em que Umuarama ficou abaixo da linha foram Nível de Colaboração (73 contra 86,67) e Impacto na Sociedade (60 contra 73,33). E aqui está a parte mais útil do relatório: em quase todos esses casos, o problema apontado não foi a ausência de ação — foi a ausência de medição.
A comissão pediu, por exemplo, quantos empreendimentos inovadores foram formalmente constituídos nos últimos dois anos, quanto dinheiro foi captado, quantas empresas foram beneficiadas, quantos empregos foram criados, qual a taxa de sobrevivência dos negócios apoiados e quantas pessoas foram efetivamente impactadas pelas ações de inclusão. Boa parte disso existe na cidade — mas está espalhada entre instituições, sem um painel comum.
Um município que virou motor de pesquisa
O que sustentou a candidatura foi a produção científica da cidade. Umuarama tem quatro instituições de ensino superior — UEM e IFPR (públicas), Unipar e UniALFA (privadas) — e três delas atuam também como Instituições de Ciência e Tecnologia, com laboratórios, mestrados e doutorados gerando patentes e produtos.
Dois equipamentos concentram boa parte dessa força. O Cenior, centro de inovação da Fundação Cândido Garcia em articulação com a Unipar, e o HUB ATPN (Aplicações Tecnológicas em Produtos Naturais), da UEM, voltado a conectar empresas às competências científicas instaladas no campus.
A característica mais interessante da pesquisa feita aqui é que ela vai além das fronteiras de setor. O ponto de partida costuma ser o agronegócio e os recursos naturais da região — o Arenito Caiuá, com seu solo arenoso e sua vocação para a pecuária —, mas os produtos finais desembocam em saúde animal, saúde humana, fármacos, cosméticos e alimentos. São curativos biodegradáveis com ativos naturais, alternativas a antibióticos na pecuária leiteira, biofertilizantes feitos com resíduos de óleos essenciais, conservantes naturais para cosméticos, biocombustível a partir de sementes nativas. Vários já viraram patente depositada no INPI; outros geraram artigos científicos e captaram recursos do CNPq e de fundações de fomento.
Foi exatamente essa transversalidade que a comissão reconheceu ao dar 80 pontos à conexão de Umuarama com sua área prioritária de atuação. A cidade não escolheu um setor por acaso — ela desenvolveu, ao longo de décadas, competência científica no que tem de mais abundante.
Do laboratório à empresa: o papel do Technopark
Pesquisa parada em prateleira não gera emprego. O elo que falta entre a bancada e o mercado é justamente o que o Technopark, parque tecnológico de Umuarama, foi criado para ocupar. Certificado pela rede estadual de parques tecnológicos, ele é hoje o ponto onde as quatro instituições de ensino, o poder público e as empresas se encontram no mesmo endereço — com incubadora, coworking, laboratório maker e centro de inovação.
A importância disso é prática. Uma tecnologia desenvolvida na universidade precisa de alguém que a transforme em empresa, de um espaço para testar, de mentoria de gestão, de acesso a capital e de um primeiro cliente. Quando esse caminho existe, a pesquisa vira startup; quando a startup amadurece, vira empresa consolidada; e empresa consolidada de base tecnológica é o tipo de negócio que paga salários altos e segura talento na cidade.
É essa a aposta: que os jovens formados em Umuarama não precisem sair para trabalhar com o que estudaram. A alternativa — formar bons profissionais e exportá-los — já é conhecida e custa caro ao território.
O dinheiro federal já está chegando
Umuarama não é apenas candidata a captar recursos. Empresas e instituições da cidade já captam. Há projetos financiados pela FINEP, recursos do CNPq em pesquisas conduzidas por grupos locais, empresas aprovadas em editais estaduais de inovação e um volume relevante de crédito acessado por meio de bancos de desenvolvimento. O relatório do PNI reconheceu isso ao pontuar bem a geração de valor financeiro.
Esse é um ponto que merece atenção do empresariado: existe dinheiro público federal e estadual disponível para inovação, boa parte dele não reembolsável ou com juros muito abaixo do mercado, e ele é disputado por quem sabe escrever projeto. Aí entra o Sistema S. Sebrae, Senai, e Senac têm equipes, metodologias e programas justamente para preparar empresas para esses editais — do diagnóstico inicial à submissão da proposta. Ampliar o uso dessa estrutura é o caminho mais curto entre a indústria tradicional de Umuarama e a indústria 4.0.
A vez do setor produtivo
Nenhum ecossistema se sustenta só com universidade e prefeitura. A Aciu e seus núcleos setoriais cumprem aqui um papel que nenhuma outra instituição consegue substituir: reunir empresas do mesmo segmento, com problemas parecidos, na mesma sala.
É nesses núcleos que uma demanda real de mercado ganha voz — e demanda real é matéria-prima de inovação. Quando um núcleo setorial leva um problema concreto para uma universidade ou para um desafio de startups, o resultado tende a ser bem mais aplicável do que uma pesquisa concebida sem interlocutor. A integração entre núcleos setoriais, câmaras temáticas e a agenda de pesquisa das ICTs é, provavelmente, a maior oportunidade de curto prazo do ecossistema — e é exatamente o critério de colaboração em que a nota ficou abaixo dos melhores do país.
O que cabe ao poder público
Do lado municipal, a estrutura institucional já avançou. Umuarama conta com uma Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, reformulou seu Conselho Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação para ampliar a participação da comunidade científica, do setor empresarial e das entidades civis, e opera com apoio do Governo do Estado.
O que consolida esse arranjo, no entanto, é o tripé jurídico da política de inovação: lei municipal de inovação, fundo municipal com recursos próprios e conselho ativo. É esse conjunto que permite ao município investir diretamente em projetos, conceder apoio a empresas nascentes, firmar parcerias com ICTs e — detalhe nada pequeno — contrapartida em editais estaduais e federais. Sem fundo, o município participa da conversa; com fundo, ele participa do investimento.
O ecossistema não tem dono
Talvez seja este o ponto mais importante para quem lê esta matéria e não trabalha com inovação: o ELI Umuarama e o SRI Arenito Caiuá não pertencem a nenhuma instituição. Não são um programa de prefeitura, nem um projeto de universidade, nem uma iniciativa isolada de qualquer entidade.
O SRI Arenito Caiuá é um movimento orgânico. Reúne, de forma voluntária, quem quiser transformar este território: pesquisadores, empresários, servidores públicos, estudantes, entidades, cooperativas, associações. É por isso que todos os anos, o circuito de inovação “Inova Arenito” consegue mobilizar dezenas de instituições e milhares de participantes em municípios diferentes da nossa região.
O Sebrae é um parceiro forte e constante desse movimento, promovendo capacitações, desafios de startups e conexão com editais. A Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação puxa a articulação local, com apoio do Governo do Estado. Mas o combustível é a adesão voluntária de quem decide contribuir.
O que vem agora
A devolutiva do PNI deixou uma lista de tarefas que é, na prática, a agenda do ecossistema para a próxima edição: medir. Quantas empresas foram criadas a partir de pesquisa local. Quanto foi captado, por quem e para quê. Quantas pessoas foram capacitadas e o que aconteceu com elas depois. Quantas empresas apoiadas continuam abertas dois anos depois. Quantos projetos ambientais foram articulados e quem se beneficiou deles.
Não é burocracia. É a diferença entre afirmar que Umuarama inova e provar que Umuarama inova — com a mesma clareza com que a cidade já comprova sua produção científica em patentes e artigos.
A boa notícia é que a matéria-prima existe: quatro instituições de ensino superior, dois centros de pesquisa aplicada em bioprodutos, um parque tecnológico em operação, uma associação comercial organizada em núcleos setoriais, um Sistema S atuante e um governo municipal com estrutura dedicada. Poucos municípios do porte de Umuarama reúnem esse conjunto. Falta costurar — e contar direito.
Fonte: André Luiz Turetta, mestre em Tecnologia e Sociedade pela UTFPR, bacharel em Administração pela UEM e docente da UniALFA.